1984 é hoje

ORWELL: 2+2=5

George Orwell dizia que escrevia para ser ouvido, e sempre por uma causa. Esse documentário do haitiano Raoul Peck (Eu Não Sou Seu Negro, Ernest Cole: Achados e Perdidos) quer atender ao desejo do escritor, trazendo seu pensamento para o front da atualidade. Durante todo o filme, ouvimos a “voz” de Orwell, magistralmente oralizada pelo ator Damian Lewis, em cartas e entradas dos seus diários que vasculham um pouco da sua vida privada e muito de suas reflexões sobre o autoritarismo e a necessidade de se preservar o pensamento independente.

O dispositivo de Raoul Peck é bem claro: conectar as ideias de Orwell não só à política do seu tempo (1903-1950), mas principalmente às tentações totalitárias contemporâneas. Daí que Pinochet, Milei, Putin, Orbán, Netanyahu, George W. Bush e principalmente Trump apareçam como novas encarnações do Grande Irmão. A invasão do Capitólio, a destruição de Gaza e da Ucrânia, os massacres no Haiti e em Myanmar são exemplos do serviço funesto feito pelos totalitarismos mais recentes.

Orwell se faz ouvir sobre sua infância e mocidade na classe média alta britânica, quando se dizia um “jovem esnobe” que chegou a trabalhar pelo imperialismo na antiga Birmânia. Ao retornar à Inglaterra, ele teria compreendido a hipocrisia de sua classe e adquirido a consciência anti-autoritária que iria fertilizar A Revolução dos Bichos (Animal Farm) e 1984. Como título desse último livro, ele cogitou “O Último Homem da Europa”, que restringiria a alegoria àquele continente.

Raoul Peck expande a argumentação profética de Orwell no tempo e no espaço. Trata não só da política lato sensu, mas também de seus desdobramentos na mídia, nos discursos de vigilância social em nome da segurança, nas manifestações da pós-verdade. O Brasil ganha uma citação com a família Marinho incluída entre os oligarcas da informação que detêm cada vez mais poder. Pierre Bourdieu é convocado para discorrer sobre esse assunto.

A verve irônica de Orwell é correspondida por Raoul Peck, por exemplo, quando afirma que os mendigos exercem uma profissão como outra qualquer. O paralelo com a ociosidade dos grandes bilionários é um trecho impagável do filme-ensaio.

A inversão no sentido das palavras que se vê hoje em dia, como é o caso de “liberdade” para a extrema direita, foi prenunciada por Orwell nos famosos três slogans paradoxais de 1984: Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão e Ignorância é Força, acrescidos da afirmação tirânica de que 2+2=5. A falsificação de dados históricos e a censura de livros progressistas surgem como atualizações da Polícia do Pensamento que tocava o terror naquele romance.

Orwell 2+2=5 tem uma abordagem ampla que requer do espectador um certo esforço de acompanhamento, especialmente para quem depende das legendas. A uma pletora de arquivos de várias épocas e lugares se somam cenas de diversos filmes, especialmente das duas versões de 1984 (Michael Anderson, 1956 e Michael Radford, 1984) e várias de Animal Farm, além de filmes de Ken Loach. Raoul Peck investe no volume de informações (vide as listas e dados estatísticos) para pontuar as muitas premonições de Orwell quanto ao mundo que o sucederia. Isso condiz com a verve ensaística do escritor, embora cobre seu preço no acúmulo audiovisual.

>> Orwell: 2+2=5 está nos cinemas.

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